Comunicado

A nossa autonomia não é debatível

13 março 2026

O CH, PSD e CDS-PP agendaram para dia 19 de março a discussão em plenário de 3 projetos de lei que constituem um ataque aos direitos de pessoas trans e intersexo, visando:

  • A revogação do reconhecimento legal do nome e identidade de género de forma autodeterminada por pessoas trans, obrigando à existência de um diagnóstico médico de “perturbação de identidade de género”. Este diagnóstico, para além de ser patologizante e desatualizado, implica comprovar quem se é. Atualmente, o reconhecimento da identidade de género e nome é autodeterminado perante o Registo Civil, sendo apenas um processo administrativo.

  • A proibição do reconhecimento legal do nome e identidade de género em jovens entre os 16 e 18 anos de idade, sendo apenas permitida após os 18 anos. Atualmente, nestas idades, o processo só pode ser feito com consentimento parental e um relatório médico que ateste capacidade de decisão e vontade informada da pessoa jovem.

  • A revogação da proteção em relação ao nome e identidade de género quando esta não corresponde aos documentos legais. Atualmente, possibilita que jovens menores de 16 anos, pessoas residentes em Portugal sem nacionalidade portuguesa e pessoas que não se identificam no marcador binário tenham o seu nome (social) e identidade de género protegidos, mesmo sem alteração efetiva no documento de identificação.

  • A revogação de medidas afirmativas que garantem o bem-estar de crianças e jovens trans nas escolas, como o reconhecimento do nome escolhido. Também se bane a sensibilização sobre temas LGBTI+ e iniciativas LGBTI+ afirmativas e não-discriminatórias. Atualmente, compete às escolas garantir o bem-estar e não-discriminação através da implementação de medidas, incluindo na Educação para a Cidadania e Educação para a Sexualidade, sendo a protecção contra a discriminação pela identidade de género garantida pelo Estatuto do Aluno e Ética Escolar (Lei n.º 51/2012).

  • A proibição de procedimentos medicamente sãos, como o uso de bloqueadores hormonais por adolescentes trans. Legislando estes procedimentos, o Estado intromete-se no ato médico, que deve depender de boas-práticas, da ponderação do risco-benefício casuístico e do que a pessoa médica considera ser mais indicado para a pessoa de quem cuida. Na realidade, os bloqueadores hormonais só são usados quando prescritos por serem necessários, e têm efeitos totalmente ou parcialmente reversíveis. A prescrição de bloqueadores, cumpre o parecer e as indicações médicas relativas à pessoa jovem utente e exige, ainda, o consentimento parental e a vontade expressa da pessoa menor.

  • A permissão de procedimentos medicamente desnecessários de modificação do corpo e características sexuais a crianças intersexo (ex. mutilação genital). Ao contrário da prescrição dos bloqueadores hormonais em jovens trans, estes procedimentos vão contra as orientações e boas-práticas médicas internacionais, pois são realizados sem vontade expressa da pessoa menor e têm, frequentemente, consequências nefastas para a sua saúde física e mental (ex. infeções, dor crónica, perda de sensação erógena, esterilização forçada). Atualmente, estes procedimentos são proibidos.

Estas iniciativas representam um retrocesso para todas as pessoas trans e intersexo e um ataque à integridade e autonomia individual e corporal de todas as pessoas. Agrava-se o caso em crianças e adolescentes trans que vêem a sua proteção desaparecer, mesmo quando já iniciaram a sua transição social na escola, casa e comunidade. Importa referir que estas alterações também significam, para muitas crianças e suas famílias, um retrocesso nos seus processos, mesmo que já completamente integradas no seu ambiente, criando medo, incerteza e degradando o seu bem-estar emocional e físico. Enquanto o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) diz que a identidade de género de todas as pessoas deve ser reconhecida em todos os estados membros, em Portugal ainda se debate se estas pessoas devem sequer ser reconhecidas.

Cumulativamente, estas propostas legislativas são contraditórias em si mesmas. Se, até aqui, a lei exigia que a utilização de nome social em jovens e crianças apenas pudesse ocorrer com a autorização de quem detinha a responsabilidade parental, agora, são os partidos proponentes, defensores da família, que desresponsabilizam as famílias da definição do bem-estar das crianças e jovens. Por outro lado, se, hoje, a lei permite o reconhecimento da identidade através de um processo meramente administrativo, estas alterações pretendem (re)introduzir um diagnóstico patologizante, ao mesmo tempo que retiram do processo clínico a sua autonomia e a capacidade de ponderar o risco-benefício para cada jovem utente.

Estas contradições fazem-nos crer que família e pessoas médicas são conceitos voláteis, cujo papel depende apenas de um interesse ideológico, sem ter em consideração o superior interesse da comunidade que tentam visar. Para além das consequências diretas na vida de pessoas trans e intersexo, importa reconhecer que propostas desta natureza aprofundam divisões sociais já existentes e fragilizam o tecido democrático. Ao transformar identidades e existências concretas em campo de disputa ideológica, criam-se novas linhas de fratura na sociedade, alimentando discursos de exclusão e desconfiança que enfraquecem os princípios de convivência plural que sustentam uma democracia. Defender os direitos destas pessoas é, por isso, também defender a capacidade democrática de uma sociedade viver com a diferença, sem a transformar em instrumento de conflito político.

Estes 3 projetos lei, cheios de argumentos sem base científica, são objetos de pareceres científicos que desmontam os argumentos e propostas do Projeto Lei n.º 391/XVII/1 do CH, ecoados no Projeto de Lei 486/XVII/1 do PSD e do Projeto de Lei 479/XVII/1 do CDS-PP:

Enquanto conjunto de organizações da sociedade civil, com foco nos direitos LGBTI+, posicionamo-nos firmemente contra estes 3 projetos de lei pelo perigo que configuram para a segurança, bem-estar e direitos humanos básicos das pessoas trans e intersexo. Não permitiremos discursos populistas e alarmistas. Não permitiremos nenhum ataque aos direitos humanos. Não permitiremos nenhum retrocesso.

Apelamos à mobilização de todas as pessoas contra estes projetos de lei. Porque juntes somos mais fortes:

  • Participem na Consulta Pública que está a decorrer relativamente ao projeto lei do Chega, partilhando a vossa visão ou testemunho sobre o tema: aqui
  • Saiam à rua dia 19 de março e marquem presença em frente à Assembleia da República em Lisboa, das 15h30 às 20h30
  • Partilhem este apelo para chegar ao máximo de pessoas possível

Seguimos em luta.

Este comunicado encontra-se disponível para subscrição aqui.

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Escrito por:

  1. rede ex aequo - associação de jovens LGBTI e apoiantes

  2. ILGA Portugal

  3. AMPLOS

  4. Casa Qui

  5. Opus Diversidades

Subscrito por:

  1. Aconchego House

  2. AEEA - Associação de Estudantes da Escola das Artes da Universidade Católica do Porto

  3. APF - Associação para o Planeamento Familiar

  4. APF Açores

  5. API - Ação Pela Identidade

  6. Anastácia - Centro de Estudos e Intervenção Decolonial

  7. Arco-íris em Bragança

  8. ARELAS, asociación de familias de infancia e mocidade Trans de Galiza

  9. Arquivo Sáfico

  10. As Cores dos Açores

  11. As DEsaFiantes

  12. Associação Anémona

  13. Associação Casa Estrela-do-Mar

  14. Associação Centro de Vida Independente

  15. Associação Clube Safo

  16. Associação de Estudantes da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto

  17. Associação Faísca Voadora

  18. Associação Plano i

  19. Associação Portuguesa Pela Igualdade

  20. Associação Sexualidades Positivas

  21. Associação TransParadise

  22. Bialogar - Podcast de Visibilidade Bissexual

  23. Bloco de Esquerda

  24. Braga Fora do Armário

  25. Casa Comunitaria Aluandê - Santiago de Compostela

  26. CIVITAS Braga - Associação para a Defesa e Promoção dos Direitos dos Cidadãos

  27. Coletivo LGBTI Leiria

  28. Colombina Clandestina

  29. Com Alma

  30. COMOL - Comissão Organizadora da Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa

  31. COMOP - Comissão Organizadora da Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto

  32. Coletivo pela Libertação da Palestina

  33. Edições Hórus Unipessoal Lda

  34. Em defesa da revolução (EDR)

  35. Estudantes do Porto em Defesa da Palestina

  36. FEM - Feministas em Movimento

  37. Feministas.pt

  38. Foro Galego de Inmigración - Galiza

  39. GAT - Grupo de Ativistas em Tratamentos

  40. Gentopia - Associação para a Diversidade e Igualdade de Género

  41. Gira Coletivo - Associação Cultural

  42. GRIT - Grupo de Intervenção e Reflexão Trans

  43. Grupo Partilha de Vivências

  44. Guimarães Pela Liberdade

  45. Guimarães Pela Palestina

  46. Guimarães LGBTQIAmais

  47. Kura Alma - Associação Sonhos Coletivos

  48. Inércia do Tempo Associação

  49. Headbangers Antifascistas

  50. HeForShe ULisboa

  51. Igreja da Comunidade Metropolitana de Lisboa

  52. Leiria Feminista

  53. LGBTI Viseu

  54. Madeira Pride

  55. Marcha de Orgulho de Santarém

  56. Marcha do Orgulho de Guimarães

  57. Marcha do Orgulho LGBTQIA+ de Setúbal

  58. Marcha LGBTI+ em Aveiro

  59. MINHO ARCO-ÍRIS

  60. Movimento dxs Trabalhadorxs do Sexo

  61. Núcleo Antifascista Guimarães

  62. Núcleo Feminista FDUL

  63. NO é Artes Performativas

  64. ODET - Oficina de Democracia e Ecologia Tecnológica

  65. Opus Gay Madeira

  66. OutCiências - núcleo queer da FCUL

  67. OVOpt - Observatório de Violência Obstétrica em Portugal

  68. Panteras Rosa - Frente de Combate à LesBiGayTransfobia

  69. Plataforma Antifascista de Lisboa e Vale do Tejo

  70. Plataforma Anti Transfobia e Homofobia de Coimbra

  71. Plataforma Artigo 65

  72. Plataforma Geni

  73. Plataforma Já Marchavas

  74. Plataforma TransParente

  75. PolyPortugal

  76. Por Todas Nós - Movimento Feminista

  77. Porto Inclusive

  78. Projeto (+) Rastreio = (+) Vida

  79. Projeto (A)MAR - Açores pela Diversidade

  80. Projeto Biodanza Cheia de Vida

  81. Qardume

  82. Queer ISCTE

  83. Queer Tropical

  84. Quir Research Hub

  85. rede 8 de março

  86. Saber Compreender

  87. SintraFriendly - Colectivo Juvenil LGBTIQA+ de Sintra e Apoiantes

  88. Sociedade das Primas - Associação cultural

  89. Sociedade Musical e Recreativa União Setubalense

  90. SOS Racismo

  91. Teatro Estúdio Fontenova

  92. Transmutar Rede Ativista

  93. UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta

  94. WikiEditoras Lx

  95. Xeilonas

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